segunda-feira, 9 de agosto de 2010

J.R.Cônsoli

João Roberto Cônsoli
Nasceu em Pouso Alegre, Minas Gerais

Formou-se em Odontologia pela U.F.M.G. em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Pertence a Academia Virtual Poética do Brasil e ao Sarau Libertário, onde publica seus contos, crônicas e poesias.

Publicou em 2004, pela Editora Armazém de Idéias, um romance denominado “A Incrível Viagem de Élfin Korat”.
J.R. Cônsoli:

e-mail – consoli@pib.cim.br

Fonte: Grace Spiller em verso e prosa


Amor Gramatical
J.R.Cônsoli

Do teu amor fui objeto direto,
o verbo ter de tuas exigências,
quis ser preposição pra ser correto,
só consegui ser mesmo reticências.

Continuei co’ amor mais que perfeito,
pensando chegar salvo ao infinitivo,
sem me afastar um ponto, e desse jeito,
aprender como agir no imperativo.

Depois das reticências fui sinal,
passei por trema, fui exclamação...
até bater-me a interrogação.

Meu verbo ser então ficou oculto,
o zeugma fez com que virasse um vulto,
e a história se acabou... ponto final!

12-05-2009.



Intimidade
J.R.Cônsoli

És tu, eu sei, os passos delicados,
o roçar do vestido de brocados,
o teu perfume de mulher madura
disposta a todo tipo de aventura.

Então... vamos sonhar, o sonho é livre!
falar das fantasias que não tive,
dos céus e mares nunca navegados,
porque os caminhos sempre obliterados.

A vida é curta, a passagem fria,
e tudo o mais que existe é fantasia,
a povoar cabeças inocentes.
Vamos... a lua entrou pela janela!
Banhou nossos lençóis com aquarela,
vivamos nosso amor completamente.

J.R.Cônsoli – 11-05-08.



Ternuras
J.R.Cônsoli

Que belos tempos os da adolescência,
que aparecem nas telas do passado,
teu vulto vem e foge com freqüência,
deixa o sorriso solto, imaculado.

Foram anos de luz, de sóis incríveis!
Nos quais amamos com inocência pura,
porquanto amantes ternos e sensíveis,
sem nada pra impedir nossa loucura.
Hoje te vejo em tudo - nos lugares...
na janela do quarto, na cortina,
no farfalhar da brisa vespertina.

A noite chega, sem pedir, me abraça,
eu sinto tua presença nos meus ares,
então beijo teus lábios na vidraça.

Belo Horizonte – 02-04-2009


Marco Zero
J.R.Cônsoli

Era uma pessoa diferente!... Falava quando todos gritavam e se mantinha calado quando todos falavam. Comumente era visto interagindo com a natureza, falando com os animais, fazendo perguntas às plantas: ele sabia que a natureza é a parte visível de Deus, então fazia contato. Todos o pensavam louco, mas ele não se incomodava com isso. Havia muito se demitira do bando de ovelhas e não solicitara registro em nenhuma alcatéia. Fazia questão de não pertencer a nenhuma unanimidade, sempre se afastava das maiorias. Nadava em sentido contrário à correnteza e chegava sempre são e salvo à praia. Sonhava enquanto todos dormiam, andava passo a passo quando todos corriam. Certa vez regia uma orquestra numa apresentação de gala, quando uma borboleta pousou-lhe na batuta. Pediu licença à platéia, levou a borboleta à janela mais próxima ,esperou que ela voasse, então voltou dando continuidade à apresentação. Quando convidado para um grande banquete e inquirido sobre o que desejava comer, simplesmente pediu: arroz com feijão e um copo com água! Saiu da mesa satisfeito tecendo elogios à cozinheira. Alegrava-se com chuvas, tempestades, trovões e relâmpagos. Escalava montanhas para sentir o vento bater forte no rosto e bulir com seus cabelos. Sempre usou a própria cabeça e tirava suas próprias conclusões de tudo, dizia ser a maior das negligências não fazê-lo. Comentava que o mundo estava muito cheio de iguais e que, por isso, nada acontecia de novo: as mesmas guerras, as mesmas rixas, as mesmas idéias, as mesmas desculpas, as mesmas cerimônias enfadonhas, o mesmo nada de sempre. Ele tinha uma visão diferente do próximo: era o mendigo da esquina, mas era também a árvore seca da calçada, o cachorro abandonado, o gato, o cavalo, o passarinho, até mesmo, a pedra do caminho. Conhecia seus erros, fazia questão de assumí-los e sabia que a sua condição humana o fazia passível de cometê-los novamente e novamente. Dizia que todas as pessoas poderiam compreender a vida se presenciassem uma folha caindo de uma árvore e refletissem sobre o fato. Via o mundo como passagem provisória, não como morada definitiva. Muitas vezes foi visto admirando amanheceres e entardeceres. Gostava da noite, apreciava o silêncio da madrugada e nunca se incomodava com o estridular dos grilos e o coaxar dos sapos. Quando viajava de carro parava nos acostamentos para contemplar montanhas e horizontes. Dormia vezes sem conta fora da barraca para observar a lua e as estrelas. Sabia que podia voar, mesmo sem asas; freqüentemente se surpreendia pairando sobre florestas, vales e rios sinuosos. Tirava os sapatos, molhava os pés nas enxurradas das chuvas ou nas ondas do mar, mesmo que isso o impedisse de comparecer a um importante compromisso. Vivia cada instante como se fosse único, compreendia que o passado ficava atrás das montanhas e que o futuro estava à frente de muitas outras. Brincava com crianças, sorria em velórios, chorava em nascimentos. Sabia da importância da qualidade de vida e não entendia porque o mundo corria tanto atrás de quantidades. Andava cuidadosamente pelas estradas para não pisotear pequenos animais. Considerava todos os seres como irmãos, companheiros de caminhada nessa etapa da travessia. Quando faleceu deixou apenas dois coités - um pra comida, outro pra água - um cobertor e uma muda de roupas. Do outro lado do mundo houve uma festança para recebê-lo.

J.R.Cônsoli – 14-04-2005.


Realização






1 comentários:

  1. Vera PerdigãoNov 1, 2010 07:18 PM

    Somente hoje com o "pobre Brasil" eu conheci as falas da alma deste Poeta da ternura, gostei MUITO e "parabenizo-me" por ter-me sido dado ainda tempo para saber que tal pessoa existe, pois iluminou minha alma.
    Meu caro poeta quer tenhas sempre esta luz a brilhar em tua alma!
    Vera Perdigão

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