LILIAN MAIAL...Mulher, médica e escritora,
algo de mãe, algo de criança,
algo de bicho, e muito de esperança.
Página pessoal na internet: http://www.lilianmaial.com/
Página Poetrix-Lillian Maial: http://lilianmt.zip.net/
Incontáveis e quentes madrugadas
(® Lílian Maial)
As incontáveis quentes madrugadas,
em busca da palavra nunca certa,
de nada adiantaram ser varadas,
dilacerando o sonho da poeta.
Nossos dragões: defesas desarmadas,
ante a ternura que esse olhar desperta,
de tantas chances tão bem camufladas,
nas sombras dos sonetos – dor secreta.
Enfim a perseguida rima rica,
teu nome, sussurrado no papel,
balbuciado em doses de quimera..
Covarde esse papel que não se arrisca,
só inscreve rocha, mar, estrela e céu,
pois rasgo-te, que o tempo não espera!
O seio esquerdo
(® Lílian Maial )
Aconteceu.
Ninguém espera
E, na primavera,
Foi-se o seio esquerdo.
Foi-se o toque,
Ficou a sensação fantasma
Foi-se o alimento,
Ficou o vazio no peito.
Como ser mulher, sem o seio esquerdo?
Como ser mãe, sem a mama esquerda?
Como ser profissional, sem o outro par?
Como se olhar no espelho nua?
O seio direito, encabulado,
Só e pendurado,
Emoldurando o luto
Do parceiro canhoto.
Está faltando o outro.
São dois.
Originalmente dois.
Há que ser dois.
Nunca mais seus dedos
Apertando a carne macia e rosada
Nunca mais sua boca
A brincar de trincar e arrepiar
Nunca mais a dança sensual
Dos pares no banho
E entre lençóis de cetim.
Há um imenso vazio
Bem maior que a mama
Que atinge camadas profundas
Da própria natureza fêmea.
Há a ausência constante
Lembrada todo o tempo
Pelo traço da cicatriz
Dessa ferida que não fecha.
Há a dor, os ductos, os lutos
Mágoa infiltrante, ingrata, infeliz.
Dias vividos sem perceber...
E para quê viver?
Olhos que nunca repararam,
Agora se recusam a olhar.
Não tem remédio.
Não tem escolha.
Tem alopécia, náusea e dor,
Tem quimioterapia.
Tem agonia,
Solidão de espinho e flor.
Tão falso o enchimento,
Disfarça a roupa,
Como peruca da alma,
Que dribla olhares piedosos
De mulher barbada de circo
Que extirpa seus próprios caroços.
Os dias arrastados, as horas contadas...
Quando volta ao normal?
Quando se acorda do pesadelo?
Ou tentar esquecê-lo?
É tão desigual, tão caolha!
Fica sem sentido, tão velha!
Um robusto, imponente, desejável,
Outro, um traço doente, indelével, lamentável.
Luta diária e desanimada
Para sobreviver.
Corpo sem jeito,
Mulher sem peito, que cala o grito
Tempo finito, seio bonito
Que se foi.
E ainda perco tempo com poemas...
(® Lílian Maial)
Mastigo a boca seca - resquícios de pele,
e sangro a luz do dia com cinzas e respingos.
Há uma lentidão no recitar das ruas,
os carros e pessoas parecem não ter pressa.
Ah! Se eles soubessem da urgência dos dias,
se sofressem os presságios dos poetas...
Bobagem! Poetas são patéticos pensadores de coisa nenhuma!
São chatos e pretensos entendidos de canções.
No entanto, a chuva cai impunemente sobre os telhados sujos,
escorrendo lodo e a solidão de pássaros sem graça,
que não cantam, nem fazem ninho.
Poetas sabem tudo sobre amor em versos,
encantam os tolos com suas rimas ricas,
mas só enfeitam de tristeza as sombras nas paredes.
Na vida, o verde queima e a chuva traz enchentes,
o mar afoga sonhos e estrelas dão insônia,
e a poesia uiva, no vazio,
incomodando os vizinhos vesgos e felizes.
Mais, muito mais...
(Lilian Maial)
Mais, muito mais que abrigo quente,
Teu ventre foi casulo de borboleta,
Milagre de colecionar gerações,
Do vinho e da multiplicação dos pães.
Mais, bem mais que cuidadosa,
Tuas mãos foram certeiras,
Ágeis como enfermeira,
A cuidar dos meus dodóis.
Mais, inexplicavelmente mais esperta,
Teus olhares sempre alerta
Aos meus dias de cólicas,
Aos meus medos da vida.
Mais, sempre mais do que eu esperava,
Me amando enquanto zangava,
Me empurrando, enquanto eu fugia,
Me sabendo, enquanto eu duvidava.
Mais, simplesmente mais bonita,
Hoje não te vejo tão vivida,
Como em tantos anos atrás,
Só que com muito, muito mais...
Mais, indubitavelmente mais velha,
Traços fundos, cara séria,
Sem sorrisos, sem festanças,
Sem perceber que inda sou tua criança.
Mais, te quero mais presente do que antes,
Te queria ver alegre novamente,
Sem rancores ou dores doravante,
A regar, com teus beijos, minhas sementes.
Mais, mãe, mais...

Oi Lílian,
ResponderExcluirEsse comovente poema “seio esquerdo” é a emanação poética de quem se sente mutilado. Felizmente, a poetisa continua aí, inteira, mostrando todo o seu talento
Em todas as formas poéticas, para deleite de quem gosta de boa poesia. Parabéns
Beijinhos do Cândido
Ler Lilian Maial é experimentar um estranho encantamento, tal a beleza que flui da sua poesia,
ResponderExcluirtal a verdade que os seus versos revelam.
Aprendi a le-la e a devorar tudo o que escreve porque também conheço um pouco da beleza interior da mulher que lhe está por detrás, porque tenho a honra de ser amigo.
Um grande espaço literário constroi-se com grandes cultores da expressão escrita e Lilian é-o, sem duvida.
Meus parabéns à ArtCulturalbrasil por mais esta acertadissima escolha.
Eugénio de Sá
BELÍSSIMOS TEXTOS, QUE DEMONSTRAM UMA SENSIBILIDADE DA ALMA, E NOS TRANSMITE UMA POESIA INTELIGENTE, E COMOVENTE, ADOREI TEUS TEXTOS POR ISTO TE PARABENIZO. BJS ARY
ResponderExcluirLilian, poetisa de recursos intelectuais e muita sensibilidade, enriquece o *Reino da Poesia*,com brilho e grandeza. Parabéns, querida! Beijos, Eliane
ResponderExcluirOi Lilian,
ResponderExcluirEnriquecedora presença.
Parabéns e parabéns principalmente pelo poema - E perco tempo com poemas...
M a r a v i l h o s o!
Parabéns pela sensibilidade e beleza de seus versos.
Parabenizo à ArtCulturalBrasil por mais esta escolha.
Cida Valadares.
Querida Lilian, indiscutivelmente você é uma grande poeta que me comprazo em ler e meditar sobre tudo que conheço do que voc~e escreve. Sonetista perfeita e em qualquer estilo mostra com propriedade a sua linda alma de poeta. Sua presença aqui, veio enriquecer, em muito, esse espaço. Fiquei feliz em me reencontrar com você aqui também.
ResponderExcluirParabéns amiga e beijos em seu coração.
Sá de Freitas
Obrigada pelos gentis comentários, queridos!
ResponderExcluirÉ uma grata satisfação pertencer a este grupo tão seleto, de escritores de quem já sou fã de carteirinha há bastante tempo, de outros que me encantei e ainda me encantarei por estas paragens, e dos amigos virtuais e pessoais que aqui tb deixam suas letras.
A todos vcs e à direção do ArtCulturalbrasil - Reino da Poesia os meus mais sinceros agradecimentos.
Beijos,
Maial
Lilian Maial, a poesia em forma de mulher, com alma de menina... encanta a quem a lê, arranca emoções e provoca a vontade de voltar. Sou fã incondicional da mulher e tive o privilégio de de ler O SEIO ESQUERDO, o primeiro de seus escritos a meu ver. O nome desta autora ficou então assinado em mim.
ResponderExcluirSérgio Holtz.
Lilia, sou admiradora dos teus poemas, com destaque para os sonetos e os poetrix. Onde encontro seus textos, paro e me entrego à degustação da tua brilhante inspiração. Quem consegue extrair poesia da dor é digno de reverência.
ResponderExcluirParabéns e obrigada por todos os belos momentos que passo lendo o que escreves.
Parabéns ao ArtCulturalBrasil pela escolha de mais uma rica e sensível alma poética.
Meu carinho,
Marise Ribeiro
Lilia, sem dúvida que ter você aqui nesse espaço, que tanto faz pelo mundo da Poesia, traz o prazer de ler seus lindos poemas, e também traz enriquecimento para o ArtCultura.
ResponderExcluirParabéns Poeta e obrigada ArtCultura!
Com carinho
Sandra